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Dia da Mulher: em pesquisas, RME aborda o perfil e a interseccionalidade dos desafios das empreendedoras

Levantamentos realizados pelo Instituto RME nos últimos anos expõem informalidade, endividamento, desigualdade racial e lacunas no acesso ao crédito que limitam o potencial econômico das empreendedoras brasileiras

No País onde as micro e pequenas empresas femininas sustentam lares e comunidades, as pesquisas anuais da Rede Mulher Empreendedora, realizadas pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), traçam um diagnóstico consistente: empreender no Brasil é, para a maioria das mulheres, tanto um ato de autonomia quanto uma estratégia de sobrevivência diante de um mercado de trabalho que ainda marginaliza mães, negras e profissionais de baixa escolaridade. Os levantamentos de 2023, 2024 e 2025 reiteram padrões, maternidade como gatilho para o negócio próprio, elevada informalidade, recorrência de dívidas e desigualdades no acesso a crédito, que demandam respostas públicas e privadas coordenadas.

Perfil socioeconômico: quem são as mulheres empreendedoras?

As pesquisas mostram um perfil majoritariamente jovem-adulta e de baixa renda: grande parte das empreendedoras concentra-se entre 30 e 49 anos e mora nas regiões Sudeste e Nordeste. Em 2023 e 2024, as análises apontaram alta presença de mulheres negras entre as respondentes (percentuais expressivos nas duas bases), e uma fatia substancial com escolaridade até o ensino médio -padrão que converge para rendas médias modestas. Em 2025, por exemplo, a renda média reportada ficou em torno de R$ 2.400 mensais; muitas respondentes são chefes de família e sustentam outras pessoas com essa renda.

Em 2023, 59% faturavam até R$ 2.500 e apenas 17% chegavam a R$ 5.000; 98% das empreendedoras naquele recorte pertenciam às classes D/E. Já em 2024, 73% das empreendedoras eram mães, e 37% declararam ser mães solo - dado que reforça a interseção entre maternidade e necessidade econômica para empreender. E em 2025, a amostra indicou renda média de R$ 2.400 e que 58,3% são chefes de família – confirmando a retórica dos anos anteriores e ainda a estagnação da renda mensal percapita.

Maternidade e economia do cuidado

Os relatórios do IRME repetem um achado central: a maternidade aparece como gatilho para o empreendedorismo. Em 2023, 77% das mulheres afirmaram ter iniciado o negócio depois da maternidade; em 2024 esse padrão é reafirmado e interpretado pelo instituto como reflexo da dificuldade do mercado formal em acomodar mães profissionais. "Desde 2016 nós fazemos essa pesquisa anualmente e mais de 68% afirmam que os filhos vieram antes de ela ser empreendedora, o que mostra, claramente, muita resistência no nosso mercado de trabalho em aceitar uma mãe enquanto profissional. Nestes casos, o caminho que resta é o do empreendedorismo", comenta Ana Fontes, fundadora da RME.

Além disso, metade das entrevistadas afirmou não receber nenhum tipo de ajuda em casa ou no negócio - um indicador direto da sobrecarga que pressiona disponibilidade de tempo e capacidade de investimento.

Dívidas, informalidade e saúde financeira

Os dados sobre endividamento e formalização mostram dinâmica ambígua: embora a edição de 2025 aponte que 57,3% das respondentes declararam não ter dívidas, as edições anteriores (e a própria leitura longitudinal) evidenciam um problema estrutural de precária saúde financeira:

Em 2023, 73% das empreendedoras relataram ter dívidas e 43% estavam com pagamentos atrasados; 4 em cada 10 negócios não tinham faturamento suficiente para cobrir custos.

A informalidade permanece elevada: em 2023, apenas 48% possuíam CNPJ e, em regiões como Norte e Nordeste, até 7 em cada 10 empreendimentos femininos estavam na informalidade — muitas vezes por falta de recursos para arcar com custos de formalização.

Em 2025 há sinais de cuidado: a maioria evita novas dívidas e os atrasos recuaram (14,6% com atrasos), mas a negativação pessoal é alta (72,1%), sinalizando que muitas recorrem ao crédito como pessoa física para sustentar o negócio.

Essa combinação de pouco capital formal, dependência de crédito pessoal e margem operacional apertada reduz a capacidade de investir em crescimento, profissionalização e tecnologia.

Acesso ao crédito: barreiras e discriminação

O acesso a financiamento aparece em todas as edições como um dos principais gargalos. Em 2025, a maior parte das que buscaram crédito recorreu a bancos privados (52,4%) e fintechs (39,6%); contudo, 65,5% nunca buscaram financiamento, apontando barreiras de informação, confiança e burocracia. Entre as que buscaram, 26,3% tiveram o pedido negado e 30,5% das negadas relataram ter sofrido alguma forma de discriminação no processo.

A desigualdade racial aparece no acesso e nos valores concedidos: mulheres negras tiveram taxas maiores de negativa (29% vs. 23% das brancas) e, quando conseguem empréstimo, frequentemente recebem quantias menores (37% das negras receberam até R$ 2.000 vs. 22% das brancas; apenas 6% das negras obtiveram acima de R$ 20 mil contra 20% das brancas). Esses números demonstram que diferenças históricas de riqueza, educação e redes de acesso repercutem de forma direta na capacidade de financiamento.

Tendências e mudanças nos últimos três anos

Mapear as três edições permite observar algumas tendências:

Persistência da maternidade como fator: a maioria das empreendedoras continuou a declarar que a maternidade antecedeu o negócio.

Leve melhora na gestão do endividamento: 2025 mostra maior proporção sem dívidas e menores atrasos, possivelmente reflexo de cautela em cenário econômico incerto.

Manutenção da informalidade e da desigualdade racial: apesar de programas e debates, as mulheres negras continuam em posição desvantajosa frente a brancas nas condições e valores de crédito.

Os dados reunidos pelo IRME entre 2023 e 2025 apontam para uma agenda clara de políticas públicas e ações privadas: ampliar o acesso a crédito adequado (com linhas para pessoa jurídica e com condições que reconheçam a realidade das microempreendedoras), reduzir a informalidade por meio de facilitação da formalização, implementar redes de apoio à maternidade e cuidados - e enfrentar, de forma explícita e mensurável, a desigualdade racial que reduz oportunidades e escala.

Sobre a RME

Primeira e maior rede de apoio a empreendedoras do Brasil, a Rede Mulher Empreendedora – RME existe desde 2010 e já impactou mais de 15,6 milhões de pessoas. Criada pela empreendedora social Ana Fontes, a RME tem como missão apoiar as mulheres na busca por autonomia econômica e geração de renda, reforçando sua essência: o espaço é delas. Por meio de capacitações, conteúdo qualificado, conexões, mentorias, acesso ao mercado através de marketplace, programas de aceleração e acesso a capital, a RME transforma histórias e cria oportunidades.

Sobre o Instituto RME

Fundado em 2017, o IRME apoia e auxilia projetos e iniciativas que empoderam mulheres em situação de vulnerabilidade social, incentivando a independência financeira e o poder de decisão pessoal. Dados apontam que quando uma mulher é empoderada financeiramente, ela não muda só a realidade de sua família, mas também sua comunidade e a sociedade, pois acreditam no poder colaborativo para melhorar o mundo.